Celular, tablet e crianças: como criar monstrinhos alienados?

(aviso: este artigo é para quem quer pensar!)

Outro dia estávamos almoçando em um restaurante. Temos a estranha mania de conversar quando estamos à mesa. De repente, somos chamados a olhar a mesa ao lado: o menino de seus dois anos quer atenção (obviamente, ele também faz parte social dos acontecimentos). Os pais estão querendo conversar com outra pessoa. O pai lhe dá o celular com vídeos tocando. O menino 'acalma'.

Costumo dizer que o tablet e o celular, assim como a chupeta, são um ótimo 'cala boca'. A criança para de 'incomodar' na hora e é abduzida para um mundo paralelo de onde só é tirada sob protestos. Imagino que 'lá', ela pode viajar em um mundo onde ninguém a incomode também, está absorta, sugadas em sua energia vital.

Pois quando os pais da mesa ao lado terminaram sua social, o pai tira o celular das mãos do menino, sem mais explicações, ao que este ressurgiu do além, como um verdadeiro Taz, aquele monstrinho da Tasmânia, lembram? Daí que as pessoas falam dos 'terrible two"...Terrible two? Um adulto que não conversa com a criança, que não a inclui em seu mundo social, que não olha em seus olhos e compreende suas necessidades...e o terrível é o two?

Em muitas outras ocasiões encontro Tazmaníacos dando seus chiliques diante do término do uso ou negação de tablet ou celular. Vezes em que presencio crianças acostumadas a ficar o tempo todo no tablet, sem saber ficar consigo mesmas ou sem saber brincar. É óbvio que estou brincando quando comparo crianças com o Taz, não porque eles não façam seus rodopios, mas por que monstrinhos e alienados estamos sendo nós, adultos, quando lidamos com as crianças!

É muito mais fácil calar os ímpetos infantis, silenciando seus pedidos e movimentos, quando estamos em um restaurante, na casa de amigos, em lugares 'adultos', precisando fazer alguma coisa adulta. Difícil mesmo é educar!

Apenas garanto que pais e mães de todos os cantos estarão mais tranquilos quando ensinarem seus filhos a conviverem, a argumentarem, a escutarem, a escolherem soluções e a fazerem parte. O resultado é para a vida toda! Por alguns dias, será preciso deixar de lado seu próprio celular para instigar conversas em família. Por alguns minutos, será necessário ser firme na decisão de não deixar usar o tablet agora e ouvir reclamações. Por algumas semanas, você precisará manter-se fiel aos combinados que fez com a criança sobre o uso dos eletrônicos. Você precisará usar a criatividade que talvez tenha deixado em sua infância para ensinar à criança o que fazer, 'enquanto papai e mamãe não podem te atender.'

Crianças são dotadas de pulsão de vida. Elas gostam de se mexer, de descobrir, precisam saber que são importantes para nós. Com uma rapidez que você não acredita, sem o tablet ou celular, elas se refazem, sacodem a poeira da adicção e se entregam ao maravilhoso mundo da infância, onde soltam sua imaginação, usam de sua criatividade, começam a se relacionar com os outros, descobrem coisas fantásticas.

Observando um grupo de meninos amigos de meu filho, vi que um deles chegou com um celular que rodava um jogo de 'desafios'. As crianças são mandadas pelo 'jogo' a fazerem alguma coisa. Logo chamei meu filho, temos essa mania de conversar com honestidade e amor. Perguntei a ele o que era aquilo. Ele contou. Perguntei se eles estavam brincando de ser marionetes de um celular. Ele arregalou os olhos. "Quem não pensa, não sabe o que é certo e errado, o que é bom e ruim, o que é sem noção ou bacana, é uma marionete dos outros. Os outros mandam quem não sabe pensar e argumentar. É isso que você quer ser?" Hummm. Não! Eu penso!

Este é apenas o primeiro passo para aquele outro 'jogo' que as crianças sabem baixar do Google Play, chamado Simsimi. Após jogarem este, recebi mensagem de pessoas próximas e sérias, que duas crianças de 10 e 12 anos foram atendidas no hospital em Florianópolis, por enforcamento, e vieram a óbito. Elas foram 'desafiadas' a se enforcar, 'se não eu te mato'.

A questão não é que 'o jogo está matando as crianças'. Nós estamos matando as crianças quando não conversamos com elas, quando não as incluímos em nossas rotinas e momentos sociais. Quando as calamos com celulares e tablets e não as ensinamos a conversarem, a confiarem em nós, a lidarem com suas emoções, com suas frustrações, com suas dificuldades, com o tempo ocioso. Matamos as crianças quando não olhamos para elas e não sabemos o que elas estão fazendo, o que estão sentindo, que dúvidas e anseios carregam, o que olham no tempo combinado do tablet. Quando não percebemos que, por mais inteligentes que elas sejam, não têm ainda maturidade emocional para lidarem com os desafios da vida real e virtual, de forma lúcida. Quando não lembramos que brincar com seus brinquedos é mágico para seus desenvolvimentos.

Não, não estou falando das mães das crianças que se mataram. Todas nós fazemos nosso melhor. Sou educadora. Adultos não aprenderam a ser pais e mães. Precisamos nos apoiar. Essa é minha parte para apoiar adultos a saberem como lidar com essa demanda atual. São coisas simples que não aprendemos em cursos de gestantes, mas que vão nos pegar na esquina.

E tem mais. Sou contra proibir o uso dos eletrônicos para crianças maiores, não para bebês, por favor! Bebês precisam usar seu corpo no espaço, ver a gente falando e tentar interagir, explorar objetos, serem acolhidas em suas emoções. Crianças maiores, que entendem regras de jogos e podem cooperar com pequenas tarefas em casa, podem utilizar (com supervisão) por um período curto do dia. Não precisam estar alienadas de tudo o que o mundo oferece em formato eletrônico. Mas que isso não as aliene das relações sociais, da natureza, de seus próprios corpos, de seus mundos internos. E para isso, meus amigos, somente o brincar para amadurecer, ampliar, saciar!

Haverá um momento em que eles estarão preparados, caso tenham brincado, se relacionado muito conosco, consigo mesmos e com os demais, de forma harmônica. Haverá um tempo em que seu cérebro terá sinapses suficientes para distinguir as coisas com clareza, em que não reproduzirão as coisas 'porque alguém mandou', mas porque são seres críticos, pensantes. Haverá um dia em que nossos pequenos terão aprendido conosco como lidar com suas tristezas, raivas e frustrações e o silêncio de sua própria companhia bastará para curar os males do mundo. Mas antes que possamos viver isso com eles, ainda não estão preparados para o uso indiscriminado de eletrônicos!

E se você quer saber, uma hora do dia é suficiente para uma criança cheia de vida, passar inerte diante de uma tela, apenas recebendo informações que, aliás, nem sempre têm qualidade. Não alimente os monstrinhos alienados que vivem dentro de você, oferecendo seu celular ou tablet às crianças. Elas têm um mundo interno ávido por ser alimentado. E para isso é preciso termos tempo para nos relacionar com elas. Afinal, nossos filhos são nossas prioridades. Ou não são?

Texto e imagens: Juliana Corullon Terapeuta Ocupacional, mestre em Pediatria, educadora brincante.

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