Uma reflexão sobre as apresentações infantis

Esta semana milhares de mães postaram no Facebook, orgulhosas, apresentações de seus filhos em homenagem a elas. Imagine que estes filhos foram treinados para cantar, dançar ou recitar algo por, pelo menos ,uma semana. Muitos deles com 2-3-4 anos, sequer tem condições neurológicas para fazerem conexão de que aquilo que precisam repetir e ensaiar agora, será um presente para mamãe em um dia futuro (crianças vivem o momento presente, mais do que qualquer adulto maduro). Isso quer dizer que não havia significado algum naquele ensaio, tempo perdido. Para elas, a vida é agora!

E se, por acaso, uma (ou muitas) dessas crianças não se identificam ao fazerem aquilo?

"Não, mas elas são livres para se apresentarem, se quiserem'.

Sim, basta deixar transparecer que ela será a única que não vai se apresentar para a mãe, ou que a mamãe ficará feliz quando a vir no palco, que você convencerá sem mais argumentos! Crianças querem ser aceitas por seus pais e mães. Entretanto, 'ser aceita' significa poder se manifestar exatamente como se é, mesmo que não agrade aos outros, ainda terei certeza de que sou amada por eles. Muitas vezes crianças obedecem 'para que a mamãe não fique brava' ou o 'papai não fique triste'.

Em muitos vídeos, vi a professora arrumando o posicionamento das crianças, recolocando-as como devem ficar, e somente consigo pensar que estamos criando uma fábrica de soldadinhos que precisam fazer o que agrada aos outros, no caso, as professoras, mães e pais. Fico triste ao ver crianças que não estão nem aí para o que acontece na apresentação e que, mesmo assim, precisam estar viradinhas de frente, abrindo e fechando a boca para ter o aplauso dos adultos.

"Ah! Mas meu filho cantou e dançou bem direitinho!"

É exatamente disto que estou falando! Eles querem ser aceitos! Pergunte a eles se querem brincar, fazer algo divertido com a mamãe ou se apresentar...Muitas vezes querendo acertar, por força do hábito, ensinamos nossas crianças a não serem autênticas, ou a se distanciarem de seus próprios sentimentos e desejos, para agradar aos maiores. Isso acontece porque fazemos parte de uma sociedade que precisa alimentar nossos egos, então, quando as crianças reproduzem algo que nem sabem o que estão fazendo direito, sentindo que nos agradam, ficamos orgulhosas e elas, sabem-se amadas. Vejam só! Quando não obedecemos ou não fazemos o que papai e mamãe querem, eles ficam bravos! Para uma criança isso significa: 'eles não me amam do jeito que sou', 'preciso me encaixar em seus desejos para ser amada'.

Quantos de nós, adultos, ainda nos vemos na obrigação de levar um presente para alguém numa data comercial, mesmo que não tenhamos dinheiro, ou de ir a um festejo que não temos vontade, somente 'por educação'? Não é por educação que fazemos essas coisas, mas porque se não fizermos, seremos julgados pelo resto da família, ou a pessoa em questão ficará chateada! 'O que vão pensar se não aparecermos no aniversário do irmão', mesmo que naquele dia tenhamos vontade de ficar quietinhos em nosso ninho?! Aprendemos cedo a nos distanciar de nossas essências e obedecermos a um status quo, para sermos aceitos. Acontece que isso tem destruído nossas relações e equilíbrio. A possibilidade de uma sociedade mais feliz e menos violenta, inicia por não nos violentarmos para agradar aos outros. Para mim, as apresentações das escolas infantis em datas comerciais, são o berço dessa violência à espontaneidade infantil.

Essas apresentações são manifestações da cultura de que as crianças são um produto e que precisam ser mostradas em uma vitrine, para que todos vejam, no espelho delas, que fizemos um bom trabalho! É o nosso ego, e não o delas, que está sendo visto. Nosso mundo interno, e não o delas, que está sendo afagado. Se pudermos refletir juntos um pouco sobre isso, iremos mais profundamente percebendo, que essa é apenas a ponta do iceberg do abandono afetivo em que todos estamos naufragados, inclusive nossos filhos! Sim, quando é o nosso ego que está sendo agraciado, nossa vontade que conta sobre a necessidade deles, não estamos vendo o universo interno e verdadeiro de nossos filhos!

Não é preciso que eles se apresentem, para que vejamos sua graça na espontaneidade que possuem! Não é preciso que façam presentes onde a professora escreve o que eles nem sabem ler, ou talvez nem seja aquilo que diriam, para que saibamos que somos amadas como mães. Que nossas carências não se sobreponham às necessidades de nossos filhos de, apenas, andarem de mãos dadas com a mamãe ou descobrirem algo novo e divertido conosco!

Que neste dia das mães possamos reverenciar a graça da vida, com suas imperfeições, noites mal dormidas, choros e escândalos daqueles que ainda nem sabem se comunicar direito. Que possamos iniciar uma jornada em que temos mais tempo para verdadeiramente curtir a presença, o presente de ser e estar com nossos amores. Que possamos fazer algo feliz juntos, e que isso nos desperte para olharmos além de nossos próprios comportamentos infantis, permitindo que nossos pequenos se experimentem nas frustrações, sejam acolhidos em seus medos, aprendam habilidades e comunicação não violenta conosco. E que essa experiência dure todos os outros dias do ano.

Por que é isso que fará de nossos filhos, dignos de aplausos: saberem encontrar, ao longo da vida, suas próprias habilidades, reconhecer suas fraquezas, manifestarem-se de forma verdadeiramente autêntica, sabendo-se únicos e amados por isso, relacionando-se de forma tranquila consigo e com os demais.

Talvez soe polêmico, justamente porque requer que olhemos nossas sombras, nossas carências, e isso é dolorido. Podemos acolher também nossas objeções, pois elas são uma tentativa desesperada de nos manter em nossos confortos.

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